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O Jornalismo e Comunicação resolveu os problemas técnicos e está de volta – ver o novo endereço aqui.
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Hoje, não tenho nada para dizer ao mundo.
Afinal tinha.
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Repetia o ritual inúmeras vezes ao longo do dia: fixava o olhar num ponto horizontal abstracto, mas inclinava a vista ligeiramente para cima; batia silenciosamente as palmas três vezes, mas com intensidade ligeiramente superior à quarta batida; então, socorria-se do punho direito e batia três vezes a meia distância entre o coração e a clavícula esquerda.
Quando o ritual terminava, ele formava inconscientemente o número 7: as quatro palmas mais as três batidas do punho. Considerava o “7” o somatório intencional de dois dígitos místicos: o “3”, que tomava como símbolo da perfeição; o “4”, que presumia ser o equivalente numérico do conceito “vida”. Procurava a perfeição para o seu próprio equilíbrio.
Não era pelo somatório dos números ou pelo “7” que o ritual adquiriu sentido – isso fazia apenas parte da cerimónia; sentia-se sim religioso, por reconhecer que assim – com o ritual – se protegia dos azares da existência. Tinha uma crença e ajustou a sua consciência aos repúdios inerentes da sanidade.
Acreditava-se imune às vicissitudes da sorte, desde que mantivesse a fé no seu culto. E por sentir que a sorte é evasiva, repetia escrupulosamente o ritual ao longo do dia. Queria mostrar-se abnegado perante a sua descoberta, perante a sua fé. Tinha a certeza que erguia a redoma protectora dos acasos da infelicidade – era demasiado prudente para se fazer refém da crueldade da morte.
Não tinha grandes certezas acerca da existência – da sua e da de todos -, mas estava seguro do papel da sorte na instabilidade da vida.
- Ser é não tropeçar na eventualidade da morte – dizia-se esporadicamente.
Um dia, anotou o ritual. Queria tornar a sequência metodológica e partilhá-la com mundo. Seria o legado da sua existência para as existências vindouras.
Começou por escrever os passos. “Primeiro, centrar o olhar num ponto horizontal abstracto, com a vista ligeiramente inclinada para cima; bater silenciosamente as palmas três vezes, às quais se junta uma quarta, mas com menor intensidade que as três anteriores; cerrar o punho direito e bater três vezes a meia distância entre o coração e a clavícula esquerda.”
Foi então no papel que se sentiu genuinamente louco – até aí, apenas julgava que poderia ser olhado como tal. Viu a sua própria debilidade intelectual expressa no esboço. Não entrou em delírios: sabia definitivamente que a sua sorte era ser objectivamente louco e que a eficiência do ritual dependia desse estado moral. A loucura protegê-lo-ia da verdade.
O ritual da sorte tinha dado certo.
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Ouço o Ribeiro e Castro a falar de “estabilidade dinâmica”, “cooperação estratégica” e “magistratura de exigência”. Expressões que podiam levar maiúsculas, tal a sua gravidade. Conceitos vazios que perduram e nos levam a concluir que um Presidente estar de acordo com um primeiro-ministro é coisa do Além; conceitos que entram na cabeça do povo a 10 e saem a 1000, cheios de insignificância, feitos para serem entendidos por jornalistas e pares.
PR
Há um hábito muito português de se ler jornais enquanto se caga. É a impossibilidade definitiva da Internet: o cheiro a merda não se pode colar ao site. Enquanto a net der show sem fedor literal, os jornais estão a salvo.
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A tomar nota:
Três concertos: DOPO / LODO (LObster+DOpo) / Lobster
26 Janeiro: 22.30H > 7.5€, Passos Manuel, Porto
www.myspace.com/dopodopo
www.myspace.com/wearelobsters
http://www.passosmanuel.net/index.php?evento_id=959A amizade nasceu numa noite comum de concertos na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Da relação ali nascida, alimentada pela admiração mútua pelos trabalhos, nasceu a ideia de juntar os dois grupos em palco numa única formação de música improvisada.
Lobster
São uma das novas bandas portuguesas mais explosivas em cima de um palco. Uma guitarra eléctrica e uma bateria são suficientes para esta forma de rock extremado, que colhe do hardcore a expressão enérgica mais inocente e do noise o desafio auditivo e a fuga às convenções. É nesse cruzamento que se situa Fast Seafood, o disco com maior visibilidade da banda de Guilherme Canhão (guitarra) e Ricardo Martins (bateria). Partem agora para um trilogia de discos partilhados com bandas vizinhas de Portugal (como os Coconut), na sequência da digressão por Espanha e França.DOPO
Descritos por Eduardo Chagas como um “dos projectos mais interessantes e originais do experimentalismo inclassificável nacional”, os DOPO exploram a folk psicadélica, os drones, a electrónica barata e quaisquer outros caminhos que os seus múltiplos instrumentos lhes apontem. O seu EP de estreia, Last Blues, To Be Read Someday, editado pela Test Tube, valeu-lhes comparações aos ritualismos improvisados dos Sunburned Hand of the Man e à melancolia dos Boxhead Ensemble, bem como elogios de gente como Rui Eduardo Paes, José Marmeleira e Hélder Gomes. Editam agora na Lovers & Lollypops e na Test Tube o seu primeiro álbum (“For the Entrance of the Sun”), que amplia as explorações de drones e acrescenta um novo componente: as vozes.
Declaração de interesses: o PR, que assina neste blog, pertence aos DOPO. Ainda bem.
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A Câmara de Rui Rio adora escrever: ou são os direitos de respostas non stop - como a ERC os adora… – ou são os despedimentos de véspera via carta. Esta autarquia é delicadamente literária.
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Sentido inverso [divagações afins]
I a X
1 – Três amigos: um conhece dois, dois conhecem apenas um. Lado a lado num mesmo sofá, o mais conhecedor está ao centro. O dilema de “um que conhece dois” não é simplesmente comunicar, mas antes saber como gerir a comunicação em dois sentidos – a que se transmite e a que se recebe.
2 – O falhanço subtil da democracia é o povo: os que não sabem; os que nunca tiveram a oportunidade de saber; os que não sabem como saber; os que sabem mal; os que não querem saber de todo; os que sabem, porque é do povo que saem os eleitos. E depois há os jornalistas.
3 – Pérez-Reverte diz que, por natureza, “todos os homens são filhos da puta”. Se o tom for religioso, Deus está em forma.
4 – Face da realidade mediática: a verdade na notícia anda receosa do pudor. O mundo que se lê, ouve ou vê nem sempre é igual ao de quem escreve e/ou edita – o problema não é da leitura, é do que se sabe e não se conta. Fica por evidenciar se os media podem ganhar mais com o círculo invertido – a verdade nem sempre é vendável.
5 – O elemento silencioso de um grupo reúne o item chave da participação: a observação. A imaginação, por sua vez, alimenta o espírito susceptível do presente ausente.
6 – Entre os diversos fenómenos que orienta, a vida entrega-se repetidas vezes em duas assumpções: em tamanho e em valor. O gato morto na estrada sensibiliza o dedo que esmaga a formiga na mesa – a vida que se vê; o milionário que poderia ser apenas rico se humanizasse a distribuição da riqueza pela mão-de-obra humilde garante da abundância – a vida que se suga.
7 – A estupidificação promovida pelos media é propaganda comprometedora da preguiça de conhecimento e lucidez intelectual. Quão pior é a oferta, mais lucrativo é o retorno e menos esclarecido o sujeito. Mas, diante da imoralidade de não querer/saber ensinar, a ameaça última vislumbra também a resignação à facilidade de não aprender.
8 – Nietzche diz que “é pelas suas virtudes que se é melhor castigado”. Com certeza que não se referia aos políticos profissionais.
9 – Face ao criminoso comum, o Estado de alguns homens de hoje possui o requinte constitucional de poder roubar com legitimidade. Ainda assim, tem-se apenas limitado a roubar.
10 – Se o léxico fosse gestor de topo do Banco de Portugal, falar tornar-se-ia perenemente luxuoso, ainda que imoral, cinco anos volvidos.
XI a XX
11 – O socialismo actual tem o melhor dos aforismos: esforça-se por soar bem.
12 – O azar não é numérico, apenas incompreendido.
13 – Se “se” fosse real, um facto uno sujeitar-se-ia indefinidamente à inconcretização.
14 – O livre-arbítrio é delírio filosófico: a vontade tem sempre vontade.
15 – A escrita é iliterada: encerra linguagem, mas incompreende-se.
16 – As canções assumidamente obscuras e violentamente libertadoras são a dádiva artística do Diabo.
17 – O vício é carente – requer a integralidade da atenção.
18 – O lamento eterno da beleza, que se segregou, é ter renegado a fealdade, que se socializou.
19 – O capitalismo é o superego da justiça social; já a imoralidade é o inconsciente do capitalismo.
20 – Se 1X tem 1000 e 1000Y têm 1, 1X pode ter 500 e distribuir fatia equivalente por 1000Y, que assim transformar-se-iam em 1000Y=1+500. Ao distribuir-se equitativamente 500 por 1000Y, que possuem individualmente 0,001 antes da redistribuição de 500, cada Y passa a possuir 0,501. Ou seja, o patrão X continua a ser o que possui imensamente mais, mas o assalariado individual aumenta o poder de compra. Consequentemente, o patrão do produto H, que não é o mesmo produto disponibilizado pelo patrão X, pode vender mais ao assalariado do patrão X. Na eventualidade da fórmula se estender a todos os patrões, a capacidade individual de adquirir bens aumenta em múltiplos sentidos – para os bens essenciais e menos determinantes. Todavia, o poder de compra aumenta, mas não a equidade – para essa não há fórmula, apenas imaginária moralidade e manifesta impossibilidade.
XXI a XXX
21 – Se a preguiça se trabalha no prazer individual, não há razão para ser recompensada como voluntarismo.
22 – O talento das palavras delimita a fronteira entre a verosimilhança e a realidade.
23 – Andrei tem quatro anos, mas não sabe o que isso significa. Andrei não sabe o que é uma pergunta e uma resposta. Andrei não fala, não gesticula, não vê; não ouve, não sente, não cheira, nem prova; não ocupa matéria. Ainda assim, com palavras, Andrei simplesmente é. A existência tem significação além da condição de vida testemunhada – é o milagre de Deus.
24 – A mente cansada é feliz; a por cansar é irrealizada.
25 – A fortuna é um logro do bem-estar.
26 – O pensamento é charmoso por não exigir fazer o menor sentido.
27 – A falácia do pensador é pensar que pensa bem.
28 – A insónia permanente de pensar é um pesadelo.
29 – O lapso da pretensão é pretender em vez de ser.
30 – Soar bem é ilusionismo vulgar.
XXXI a XXXVI
31 – À solta, o inconsciente atropela-se.
32 – Porque se muta por si mesma, a palavra não é tecnológica. Até ver.
33 – A fantasia da verdade é saber a verdade acerca de si mesma.
34 – O fascínio da argumentação coloquial espontânea é a capacidade de formar opinião no instante.
35 – Os gestores e os jornalistas são criaturas curiosas: não agem directamente sobre o mundo, apenas sobre outros agentes da realidade. Não erguem, apenas gerem o contexto – o que é, no essencial da pertinência do acto de ser, uma variante chique da inutilidade (e, no caso dos gestores e de alguns jornalistas, muito bem compensada).
36 – A inutilidade existe para ser admirada.
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Se “piça” significasse “sol”, a mesma palavra seria mais radiante?
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À esquerda: como simpatizar com um bacano misantropo. À direita: como antipatizar com a obediência.
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Confesso que estou com particular curiosidade para assistir aos desenvolvimentos da programação da Casa da Música para 2007. Não sou dos mais entusiastas em relação à capacidade de Pedro Burmester elaborar a solo uma programação coerente – em recente entrevista à RTPN, voltou a referir-se ao meteorito como a “casa de todas as músicas”, que, além de mentira feia, é mensagem que já não faz sentido vender; por outro lado, acredito que a Casa da Música, com uma equipa de programação a sério e ecléctica, é capaz de reanimar uma estrutura que fecha na Páscoa, que não agita o Ano Novo, que omite uma verdadeira festa de Natal para a cidade e que não é capaz de antecipar um único nome a despontar no cenário internacional - o Passos Manuel conseguiu fazê-lo, a Casa das Artes idem, tal como a Zé dos Bois e etc. Em poucos meses, o próprio Theatro Circo já sabe fazer corar a Casa da Música – que, recorde-se, tem injecções anuais de 10 milhões de euros públicos. O que vale é que pelo menos o Porto tem Quim Barreiros na noite de ano novo e os outros não.
P.S. Naturalmente, o título deste post pertence a território neutro.
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I bought a carton of chips at McDonald’s, where I felt like a criminal wanted worldwide as I stood at the brightly lit counter, and ate them as I walked back to my hotel.
W.G. Sebald, Os Anéis de Saturno
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A Igreja já partia em vantagem, mas tem tratado de armazenar maior fôlego: a cerca de um mês do referendo, é nas missas e na Renascença que se tem feito a campanha mais séria, acutilante, eficaz e, simultaneamente, a mais danosa para quem acredita que o “Sim” não terá tão cedo hipóteses de se referendar de novo. E com Cavaco Silva na Índia, o histerismo viajante dos “media” não regressa com profundidade ao tema nos próximos 10 dias.
A propósito, sugiro a leitura dos textos da Helena – ver aqui -, do Rui Costa - ver aqui - e do Obsecado (sic) – aqui.
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