Arquivado em: sentido inverso
Sentido inverso [divagações afins]
I a X
1 – Três amigos: um conhece dois, dois conhecem apenas um. Lado a lado num mesmo sofá, o mais conhecedor está ao centro. O dilema de “um que conhece dois” não é simplesmente comunicar, mas antes saber como gerir a comunicação em dois sentidos – a que se transmite e a que se recebe.
2 – O falhanço subtil da democracia é o povo: os que não sabem; os que nunca tiveram a oportunidade de saber; os que não sabem como saber; os que sabem mal; os que não querem saber de todo; os que sabem, porque é do povo que saem os eleitos. E depois há os jornalistas.
3 – Pérez-Reverte diz que, por natureza, “todos os homens são filhos da puta”. Se o tom for religioso, Deus está em forma.
4 – Face da realidade mediática: a verdade na notícia anda receosa do pudor. O mundo que se lê, ouve ou vê nem sempre é igual ao de quem escreve e/ou edita – o problema não é da leitura, é do que se sabe e não se conta. Fica por evidenciar se os media podem ganhar mais com o círculo invertido – a verdade nem sempre é vendável.
5 – O elemento silencioso de um grupo reúne o item chave da participação: a observação. A imaginação, por sua vez, alimenta o espírito susceptível do presente ausente.
6 – Entre os diversos fenómenos que orienta, a vida entrega-se repetidas vezes em duas assumpções: em tamanho e em valor. O gato morto na estrada sensibiliza o dedo que esmaga a formiga na mesa – a vida que se vê; o milionário que poderia ser apenas rico se humanizasse a distribuição da riqueza pela mão-de-obra humilde garante da abundância – a vida que se suga.
7 – A estupidificação promovida pelos media é propaganda comprometedora da preguiça de conhecimento e lucidez intelectual. Quão pior é a oferta, mais lucrativo é o retorno e menos esclarecido o sujeito. Mas, diante da imoralidade de não querer/saber ensinar, a ameaça última vislumbra também a resignação à facilidade de não aprender.
8 – Nietzche diz que “é pelas suas virtudes que se é melhor castigado”. Com certeza que não se referia aos políticos profissionais.
9 – Face ao criminoso comum, o Estado de alguns homens de hoje possui o requinte constitucional de poder roubar com legitimidade. Ainda assim, tem-se apenas limitado a roubar.
10 – Se o léxico fosse gestor de topo do Banco de Portugal, falar tornar-se-ia perenemente luxuoso, ainda que imoral, cinco anos volvidos.
XI a XX
11 – O socialismo actual tem o melhor dos aforismos: esforça-se por soar bem.
12 – O azar não é numérico, apenas incompreendido.
13 – Se “se” fosse real, um facto uno sujeitar-se-ia indefinidamente à inconcretização.
14 – O livre-arbítrio é delírio filosófico: a vontade tem sempre vontade.
15 – A escrita é iliterada: encerra linguagem, mas incompreende-se.
16 – As canções assumidamente obscuras e violentamente libertadoras são a dádiva artística do Diabo.
17 – O vício é carente – requer a integralidade da atenção.
18 – O lamento eterno da beleza, que se segregou, é ter renegado a fealdade, que se socializou.
19 – O capitalismo é o superego da justiça social; já a imoralidade é o inconsciente do capitalismo.
20 – Se 1X tem 1000 e 1000Y têm 1, 1X pode ter 500 e distribuir fatia equivalente por 1000Y, que assim transformar-se-iam em 1000Y=1+500. Ao distribuir-se equitativamente 500 por 1000Y, que possuem individualmente 0,001 antes da redistribuição de 500, cada Y passa a possuir 0,501. Ou seja, o patrão X continua a ser o que possui imensamente mais, mas o assalariado individual aumenta o poder de compra. Consequentemente, o patrão do produto H, que não é o mesmo produto disponibilizado pelo patrão X, pode vender mais ao assalariado do patrão X. Na eventualidade da fórmula se estender a todos os patrões, a capacidade individual de adquirir bens aumenta em múltiplos sentidos – para os bens essenciais e menos determinantes. Todavia, o poder de compra aumenta, mas não a equidade – para essa não há fórmula, apenas imaginária moralidade e manifesta impossibilidade.
XXI a XXX
21 – Se a preguiça se trabalha no prazer individual, não há razão para ser recompensada como voluntarismo.
22 – O talento das palavras delimita a fronteira entre a verosimilhança e a realidade.
23 – Andrei tem quatro anos, mas não sabe o que isso significa. Andrei não sabe o que é uma pergunta e uma resposta. Andrei não fala, não gesticula, não vê; não ouve, não sente, não cheira, nem prova; não ocupa matéria. Ainda assim, com palavras, Andrei simplesmente é. A existência tem significação além da condição de vida testemunhada – é o milagre de Deus.
24 – A mente cansada é feliz; a por cansar é irrealizada.
25 – A fortuna é um logro do bem-estar.
26 – O pensamento é charmoso por não exigir fazer o menor sentido.
27 – A falácia do pensador é pensar que pensa bem.
28 – A insónia permanente de pensar é um pesadelo.
29 – O lapso da pretensão é pretender em vez de ser.
30 – Soar bem é ilusionismo vulgar.
XXXI a XXXVI
31 – À solta, o inconsciente atropela-se.
32 – Porque se muta por si mesma, a palavra não é tecnológica. Até ver.
33 – A fantasia da verdade é saber a verdade acerca de si mesma.
34 – O fascínio da argumentação coloquial espontânea é a capacidade de formar opinião no instante.
35 – Os gestores e os jornalistas são criaturas curiosas: não agem directamente sobre o mundo, apenas sobre outros agentes da realidade. Não erguem, apenas gerem o contexto – o que é, no essencial da pertinência do acto de ser, uma variante chique da inutilidade (e, no caso dos gestores e de alguns jornalistas, muito bem compensada).
36 – A inutilidade existe para ser admirada.
GO
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Blog muito interessante.
Comentário por fontez Sábado • 13-01-2007 @ 1:45Gostei.
Posts bons.
Obrigado, mas nem sempre os posts são bons. Nem têm que ser…
Comentário por GO Segunda-feira • 15-01-2007 @ 20:04